Tomando Consciência

Naquela madrugada acordei e pedi ajuda para meu marido, vi que minha situação não estava normal e que eu estava entrando em um estágio de mania. Pedi desesperadamente para ele me levar para um pronto-socorro. Ele pediu para eu manter a calma, eu só sabia que não queria entrar em um nova crise. Entrei em contato com o pronto-socorro que costumo ir e eles falaram que não tinha psiquiatra de plantão, teriamos que aguradar em torno de 2h. Achei melhor esperar o dia amanhacer e ir em alguma clínica psquiatrica. O médico que tinha me atendido na minha primeira crise estava internado a meses por conta de um cancêr.

E assim logo que acordamos entramos em contato com uma clínica que tinha psiquiatra de plantão visto ser período de festas. Conseguimos um encaixe e naquele dia às 15h da tarde estávamos lá.

O médico que nos atendeu foi muito atencioso e falou que é muito comum acontecimentos como esse por conta de pacientes questionarem o diagnóstico. Falei o quanto eu estava com medo, não queria que essa crise se transformasse numa crise psicótica. Ele falou para ter calma que isso não aconteceria de uma hora para outra.

Ele conversou comigo e com meu marido e deu as receitas para os medicamentos. Passamos na fármacia compramos tudo direitinho, eu estava disposta a tomar os medicamentos necessários para minha recuperação.

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Uma nova crise

Eu não me dei conta do que estava acontecendo, mas aos poucos o meu sono foi diminuindo e eu acordava de madrugada, ia para sala de estar meditar e fazer respiração consciente.

Desde a minha primeira crise em 2014 mudei muitos hábitos na minha vida e na busca por equilibrio iniciei a meditação e respiração, os quais me fazem muito bem.

Então nas madrugadas eu meditava, respirava, dançava ballet na sala (algo que fiz apenas por poucos anos na minha infância) e queria ficar o mais próximo possível das minhas plantas, que também acabou virando uma das minhas paixões depois que comecei a fazer trilhas. Tinha dias que eu durante a madrugada deitava no sofá da varanda para poder ficar perto delas.

A minha “paixão” pelas plantas foi aumentando e cada vez eu queria ficar mais perto delas. O que me levava a descer no prédio no térreo do prédio onde moro, em um local com muitas plantas e a começar a cuidar do jardim. O jardim realmente não era bem cuidado e eu dedicava horas do meu dia para isso.

Até que em um momento meu marido começou achar estranho meu comportamento e foi verificar meus remédios, ele percebeu que não tinha mais Lítio e me perguntou se eu tinha parado de tomar o remédio. Fiquei muda por alguns instantes e ele insistiu. Eu não gosto de mentiras, até então eu estava apenas omitindo, foi ai que respondi sim. Sim eu parei o Litio.

Eu não me lembro exatamente que dia era, as coisas começaram a ficar muito confusas para mim, creio que isso aconteceu no dia 26/12/18.

Questionei o diagnóstico

Há 4 anos e meio atrás fui diagnosticada com bipolaridade.

Por todo esse tempo até novembro do ano passado tomei todos os medicamentos conforme orientação médica. Fiz exercícios físicos, iniciei a meditação, fiz o que podia para levar uma vida mais tranquila e nunca mais passar o que passei, uma crise psicótica seguida de uma internação.


Não gostava de falar sobre a doença e tão pouco que meu marido me lembrasse que sou bipolar perguntando diariamente se tomei meus medicamentos, queria apenas levar uma vida normal como outra pessoa qualquer.

Mas será que outras pessoas levam vida normal? Afinal o que é uma vida normal?

O que é uma vida normal eu não sei, mas ser bipolar para mim não era nada normal. E foi isso o que eu fiz, apesar de altos e baixos levei minha vida “normalmente”, trabalhei, viajei, me diverti e investi muito do meu tempo em autoconhecimento.

Assim foram por 4 anos e meio até eu questionar o disgnóstico e fazer um plano para parar te tomar o Lítio.

Eu estava passando por uma fase muito difícil. Meses atrás iniciei um processo para fertilização, o que para mim era um grande desafio pois a maioria dos médicos que fui eram contra a gestação para bipolares.

Há 10 anos tento engravidar de forma natural e nada acontece, me enchi de coragem, dessa vez o meu médico me apoiou por ver que eu estava tanto tempo estável e fui para cima.

Hormônios, injeções e conseguimos congelar 1 embrião já fecundado. Passei muito bem durante todo o processo e não tive oscilações de humor. Fiquei muito feliz com tudo isso, pois era algo que me preocupava bastante

Eu e meu marido tinhamos uma viagem marcada para outubro de 2018 e a ideia era assim que voltássemos fazer a fertilização.

Como eu tinha um probleminha na tiroide, passei na endocrino para ver se estáva tudo ok, foi quando descobrimos que eu estava com um nódulo maligno e teria que ser retirado. Ainda não sabíamos se tinha ido para outros locais e se seria necessário fazer a radioterapia, naquele momento eu não quis ouvir falar sobre isso, pensei: um dia de cada vez, e reagi muito bem a tudo, super tranquila. O que me faz pensar se eu já não estava com um pouco de euforia, visto que eu tinha parado de tomar a quetiapina uns 15 dias antes e meus medos de doenças às vezes se apresentam grandes demais.

Seja lá o que for acabou que a cirúrgia foi ótima e eu reagi a tudo com muita naturalidade e tranquilidade.

Pensei: Eu não posso ser bipolar, Estou ótima, tranquila em todas essas situações e simplesmente coloquei na minha cabeça, que a minha crise psicótica de 2014 tinha sido uma crise de burnout, coisa que já falava a muito tempo, inclusive questionei diferentes médicos, todos inclusive falaram que eu era bipolar.

Mas eu estava muito corajosa e pronta a mostrar para o mundo que meu diagnóstico estava errado. Evidentemente ninguém poderia saber do meu plano de parar o medicamento.

Escrevi em um papel como diminuiria o Litio e fui seguindo esse plano que demorou aproximadamente 1 mês e meio até que todo o estrago fosse feito.

Aos poucos eu simplesmente parei de tomar aquilo que estava me dando uma vida estável e “normal”.